EU VOS AMO! VÓS SOIS A MINHA VIDA.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Reconciliação e desenvolvimento para o Sudão


Entrevista com Dom Cesare Mazzolari, Bispo de Rumbek

Dia 9 de Julho, em Juba, capital do Sudão do Sul, uma declaração oficial sancionará a criação do 54º país africano. O Sul, cristão e animista, oficializará a separação do regime islâmico do Norte. A criação do Sudão do Sul é segura, mas ainda está ameaçada por confrontos e focos de guerra civil. Entre as personalidades que trabalham pela reconciliação, destaca-se Dom Cesare Mazzolari, Bispo da Diocese de Rumbek (Sudão do Sul) desde 1999 e missionário para o povo sudanês há 30 anos.

Com a constituição do Sudão do Sul, o que mudará para o povo e para a situação geopolítica do Norte de África?

Dom Mazzolari:
A secessão do Sudão do Sul representa um objectivo de liberdade para um povo oprimido durante mais de 20 anos de guerra civil. Prevejo uma época de cristandade que se aprofundará cada vez mais. Este símbolo de liberdade africana, de liberdade genuína, fortemente desejada, é visível também no Norte de África, com as revoluções que se sucederam nos últimos meses. Isso não significa que deverá haver divisões noutros Estados Africanos, mas certamente o percurso feito pelo Sudão do Sul foi valorizado e apoiado transversalmente em todo o país.

Qual é a posição da Igreja Católica? E que de que forma os cristãos podem ajudar ao nascimento e desenvolvimento do Sudão do Sul?

Dom Mazzolari:
Para um país que tem a taxa mais alta de analfabetismo no mundo (somente 15% dos homens e 9% das mulheres sabem ler e escrever), agora, mais do que nunca, precisamos de formar a classe dirigente do futuro para que a autodeterminação deste povo seja plena e madura, como sinal da esperança e de uma fundamental recuperação da identidade. Como Igreja, temos, ainda hoje, uma grande responsabilidade na construção do novo Estado: devemos ensinar a arte paciente do diálogo, da comunicação e da reconciliação, para colocar as bases de um novo país que praticamente só conhece o caminho da violência.

Quais são os projectos educativos para o desenvolvimento promovido pela associação CESAR que dirige? Em particular, como pretende construir o primeiro centro para a formação de professores do Sudão do Sul?

Dom Mazzolari:
CESAR nasceu em 2000, com o objectivo de procurar ajuda fora de África, e constitui um verdadeiro enlace entre a missão e os seus benfeitores. Os fundos recolhidos são utilizados em diversos âmbitos, segundo as necessidades do momento: da pastoral à educação, da saúde às ajudas humanitárias, como está documentado no site www.cesarsudan.org.

Actualmente, estamos a construir um centro para professores em Cuiebet, localidade a 80km de Rumbek. É uma escola que formará cada ano 30 professores capazes de oferecer uma instrução básica a mais de 5 mil crianças, apenas nos primeiros cinco anos de actividade. Levar a cabo esta obra requer o compromisso das instituições internacionais; o nosso apelo dirige-se a elas, para que possam dar um novo impulso aos projectos, nesta terra martirizada pela guerra civil e pela pobreza. Por isso, sustentamos as instituições de uma embaixada italiana em Juba, que poderia naturalmente colocar em marcha uma mudança significativa nesta direcção.

De que maneira as instituições internacionais, os governos e as Igrejas cristãs podem contribuir para a realização dos projectos de desenvolvimento para o Sudão do Sul?

Dom Mazzolari:
Infelizmente, o Sudão do Sul é o país mais pobre do mundo: 90% dos habitantes vive com menos de um dólar por dia. No entanto, a superfície e o subsolo deste país esconde enormes riquezas a serem descobertas: petróleo, ouro, madeiras preciosas, como o ébano e o mogno. Faltam pessoas que saibam explorar esta riqueza para dá-la a conhecer dentro e fora das fronteiras do Sudão do Sul. A ideia de construir uma carpintaria tem precisamente essa intenção: investir no Sudão do Sul, dando a possibilidade aos cidadãos de trabalhar os recursos que a terra oferece.

Quais são as dificuldades que prevê encontrar? E quais os recursos humanos a serem mobilizados?

Dom Mazzolari:
Não teremos a integração imediata, razão pela qual o Norte e o Sul deverão aceitar ser pobres pelo menos por mais 10 anos. Não há hospitais, escolas, fontes de água, infraestruturas. Será necessária a ajuda da comunidade internacional para alcançar muitos dos objectivos que a independência trará consigo. Os contínuos ataques provocadores do Governo de Cartum, com a ocupação militar da área de Abyei, disputada pelos jazigos petrolíferos de que dispõe, convidam claramente à guerra. Mas o Governo do Sul está a reagir às provocações, fazendo-as cair no vazio. A atmosfera, portanto, não é a mais serena, mas apesar disso estou convencido de que o povo está decidido a tornar-se independente - e suportar silenciosamente o Governo de Cartum é uma demonstração disso.

Esta entrevista foi realizada pela Agência de Notícias ZENIT.

Sem comentários: